9.11.2007
9.10.2007
DO FINAL DO TEMPOS
Era de manhã cedo, lá pelas 9h, quando um garoto do 4º ano entrou na sala de aula. Foi até o professor e cochichou algo em seu ouvido. Sem se levantar de uma sisuda mesa de mogno escuro, o professor Marchi, que até então havia discutido a questão da propriedade horizontal no direito romano, nos deu a notícia: “Parece que um boeing atingiu o World Trade Center, em Nova York”.
O caso foi que ele não parece ter ficado muito impressionado, pois logo depois que o garoto do 4º ano saiu da sala, continuou a aula normalmente, como se a discussão sobre a propriedade horizontal no direito romano ainda tivesse alguma relevância. Eu e os outros 120 alunos da sala também não ficamos muito impressionados e continuamos a não prestar atenção às palavras do Marchi.
O sinal do intervalo bateu lá pelas 10h e eu, como sempre fazia, decidi descer até o Centro Acadêmico para comer um salgado gorduroso recheado com catupiri e espinafre (mistura que eu então considerava equilibrada e saudável). Seguimos eu e meu colega Carlos, um grande admirador das idéias políticas e do estilo de vida de Winston Churchill, até a rua Riachuelo, onde ficava o porão que funcionava como C.A. da Faculdade de Direito.
Diferente do costume daquele horário, o lugar estava abarrotado de gente. Todos olhando para uma televisão afixada na parede. Perguntamos para uma menina o que tinha acontecido exatamente. Ela explicou: “Jogaram dois aviões contra o World Trade Center. Um carro bomba explodiu o Pentágono e parece que aconteceu alguma coisa com a Casa Branca”.
Eu e o Carlos nunca tínhamos ouvido falar de Osama Bin Laden, e imaginávamos que os Estados Unidos começariam a partir daquele momento o que chamamos de ‘holocausto nuclear’ (a expressão era bombástica e guardava toda a seriedade que o momento pedia). Sem opções, a não ser esperar o vento radiativo das bombas americanas derreter nossa pele, resolvemos observar o final dos tempos tomando cerveja na lanchonete de um chinês próxima à Praça da Sé.
Quando chegamos lá, a televisão estava desligada. Tentamos convencer o dono do boteco a ligar o aparelho, argumentando que estávamos vivendo um momento histórico. Ele pareceu não entender, pois serviu a cerveja, se virou e continuou lavando a louça.
