Da ressurreição
Todo mundo sabia que ele não passava de um louco. Desde que fez 17 anos contava que ouvia vozes esquisitas, cantos de pássaros e trombetas de anjos no meio da aula. Ninguém levava a sério. Ele sempre fora esquisito.
Com o tempo, seus pais começaram a se preocupar. Mais de uma vez foi internado, mas nada o convencia de não era um escolhido de deus.
Insistia que já havia andado pelas águas daquele rio poluído, que numa festa em que todos estavam bêbados havia transformado água em cachaça e que havia conseguido levitar dentro do banheiro da faculdade.
Ninguém nunca havia presenciado nada disso. Na verdade, ninguém levava a sério.
Saiu da faculdade, desistiu do Jornalismo. Naquele ponto ninguém mais agüentava suas pregações no metrô e nos corredores. Seus amigos se afastaram e ele se tornou motivo de piada até mesmo entre os professores.
Saiu pelo mundo. Dizia que realizava prodígios. Ninguém nunca tinha visto nada.
Alguns hippies que mendigavam na Av. Paulista se encantaram com sua figura barbuda e largaram tudo para segui-lo. Nunca presenciaram nenhum milagre, mas não se importavam.
Com o tempo criou fama. Ia aos programas de televisão falar da nova boa nova cujos princípios se encontravam no livro que estava escrevendo. Pedia contribuições em dinheiro para a publicação. Ninguém deu.
Um dia, num desses programas, encontrou um antigo colega de faculdade. Reconheceu-o e, diante das câmeras, disse que haviam sido bons amigos na juventude. O jornalista, transtornado e preocupado com sua reputação, negou por três vezes. Todo mundo levou a sério.
Uma de suas andanças o levou a uma tradicional faculdade de Direito, reconhecida pelo catolicismo de seus alunos. Enquanto falava, todos riam, puxavam suas barbas e cuspiam em sua cara. Quem se importaria?
Ao final da visita, os estudantes vieram lhe dizer que haviam preparado uma surpresa. Algemaram-no e o levaram para o meio do pátio. Haviam montado uma cruz.
Os hippies disseram que ele ressuscitou depois de uma semana.

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